sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Os Beatles e a faixa de pedestres mais famosa do mundo

 

Cruzamento ganhou fama ao figurar na capa do último disco dos Beatles.
 

 Foto: Divulgação

 

A faixa de pedestres mais famosa do mundo fica no final de uma rua que tem em torno de 1.500 metros de extensão – mais precisamente, na esquina das ruas Abbey Road com Grove End, em Londres. Foi esse cruzamento que os Beatles eternizaram na capa do último álbum gravado pelo quarteto e lançado em 26 de setembro de 1969, "Abbey Road"  – mesmo nome do estúdio onde os Fab Four gravaram a maior parte das suas músicas. 

A rua Abbey fica entre os bairros de Kilburn e St. John's Wood, e a origem do seu nome se perdeu na memória. O livro "Old and new London" ("Antiga e nova Londres"), de 1878, diz que o nome provavelmente vem de uma capela instalada no centro da vila de Kilburn. A vila foi incorporada à cidade à medida em que Londres cresceu no sentido noroeste, mas o nome da rua se manteve. Além dos estúdios, ela dá nome ao banco Abbey, que foi fundado em uma igreja batista também em Abbey Road, no século XIX.

 O cruzamento fica a poucos minutos de caminhada da estação de metrô de St. John's Wood, na Jubilee Line. Dentro da estação fica o "Beatles Coffee Shop", mistura de café e loja de souvenirs da banda. O estabelecimento foi comprado há três anos pelo casal Richard e Irina Porter.

Richard também é guia turístico especializado em Beatles, e escreveu o "The Official Abbey Road Cafe Guide". O livro, que mostra os principais lugares que os beatlemaníacos devem visitar, está esgotado. "Mas estamos preparando uma nova tiragem", avisa Richard, em entrevista por telefone ao G1.

Ele conta também que não há nenhum evento programado para este sábado, em comemoração do aniversário de 40 anos de lançamento de "Abbey Road", o álbum. "Nós já fizemos uma comemoração neste ano, no dia 8 de agosto, que marcou os 40 anos em que a foto com os Beatles foi tirada", explica. O evento reuniu mais de 1.000 fãs, uma banda cover (Sgt Pepper's Only Dart Board) e o próprio Richard, segurando a capa do álbum, além de 15 equipes de TV e inúmeros fotógrafos.

Monumento

Saindo da estação de metrô, o fã que quiser ter sua própria foto atravessando a faixa de pedestres deve virar à direita, acompanhando a rua Grove End. Três quadras depois, vai se deparar com um monumento em um cruzamento – é ali que fica a Abbey Road.

O monumento branco, adornado por uma estátua de uma mulher nua, é uma homenagem ao poeta Edward Onslow Ford, morto em 1901 e morador da região. A estátua é uma réplica da imagem da Musa da Poesia, que Onslow esculpiu para adornar o túmulo do poeta P. B. Shelley.

O cruzamento tem um trânsito movimentado, o que não impede os fãs de continuarem atravessando para tirar fotografias como os Beatles. Na esquina, fica um conjunto de apartamentos chamado Abbey House – a região é predominantemente residencial, e foi um dos primeiros "subúrbios" de Londres, começando a ser ocupada dessa forma a partir do século XIX.

Em frente ao monumento ficava uma placa indicando a rua, mas a prefeitura a removeu em 2007, porque era grafitada e roubada constantemente. A placa agora está sendo leiloada no site eBay, e o dinheiro arrecadado será usado na manutenção das ruas da região.

Estúdios

Ao lado da Abbey House está um muro branco cheio de rabiscos. Ali fica o complexo de estúdios Abbey Road. As mensagens e desenhos deixados pelos fãs dos Beatles não ficam expostas para sempre, porque o muro é repintado com frequência. Além disso, os estúdios mantêm uma webcam ligada durante 24h, apontada para faixa de pedestres, que pode ser acessada pela internet.

O complexo de estúdios ocupa uma casa georgiana, construída em 1831, e adquirida pela Gramophone Company em 1931. Abbey Road tem três estúdios, baseados no tamanho dos grupos usados para executar peças de música erudita. O Estúdio Um comporta uma orquestra sinfônica inteira, o Estúdio Dois tem espaço para uma orquestra de 35 peças e no Estúdio Três é possível acomodar um pequeno grupo de câmara.

No mesmo ano em que os estúdio foi inaugurado, a Gramophone Company se fundiu com a Columbia Gramophone Company, criando a Electrical and Musical Industries, ou EMI. No dia 6 de junho de 1962, os Beatles pararam pela primeira vez na frente do estúdio, para uma sessão de gravação com George Martin, que se tornaria o produtor e fiel escudeiro (ao menos nos assuntos sonoros) dos Fab Four. 

Saiba mais

A gravação era um teste, conseguido pelo empresário do grupo Brian Epstein. A banda veio de Liverpool de carro, dirigido pelo amigo Neil Aspinall, e ficou meia hora procurando pelo estúdio. Não havia nenhuma placa indicando o local, mas o motorista resolveu estacionar ali. "Tem que ser esse o lugar", teria dito. "Isto é uma casa!" teria retrucado Pete Best, então baterista da banda.

Depois de serem aprovados por Martin e contratados pela EMI (com a condição de trocar Best pelo baterista Ringo Starr), os Beatles transformaram Abbey Road em seu quartel-general de gravações. Mais de 90% do material do quarteto foi gravado ali.

Pioneirismo

Mas os Beatles não foram os pioneiros do rock no estúdio dedicado inicialmente à música erudita. Em 1958, Cliff Richard gravou ali a faixa "Move it", considerado o primeiro compacto de rock 'n' roll produzido na Europa.

Apesar de não terem sido os primeiros no rock, os Beatles usaram o estúdio como instrumento para outra revolução – a psicodelia. A partir de meados da década de 60, deixaram de excursionar e começaram a fazer experimentos no estúdio.

Faixas como "Tomorrow never knows" e "Strawberry fields forever" exploravam todas as possibilidades de Abbey Road – mesmo que na época as mesas de gravação tivessem apenas quatro canais. "A day in the life", última música do disco "Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band", contou com uma orquestra de quarenta peças, aproveitando o espaço do Estúdio Um.

Depois da experiência fracassada do projeto "Get back" inventado por Paul McCartney (que acabou virando o disco "póstumo" "Let it be") em 1969, os Beatles voltaram à Abbey Road para gravar seu último álbum.

 'Everest'

O nome original de "Abbey Road", o álbum, seria "Everest", inspirado na marca de cigarros que o engenheiro de som Geoff Emerick fumava. Eles chegaram a pensar inclusive em pegar um jato particular e viajar até a montanha mais alta do mundo para fazer a foto de capa.

Mas o stress entre os integrantes perto do fim do grupo favoreceu a abordagem mais prática. "Vamos lá fora, tiramos a foto, chamamos o LP de 'Abbey Road' e assunto encerrado" foi o pensamento comum, segundo o biógrafo Bob Spitz em seu livro "The Beatles".

A foto foi tirada no dia 8 de agosto, auge do verão inglês, perto das 10h da manhã. Paul havia feito alguns esboços para um foto simples, com os quatro atravessando a faixa de pedestres perto do estúdio. Tirando George, vestindo jeans, todos os Beatles usavam terno naquela manhã. Estacionado no meio-fio estava um Fusca, no enquadramento da foto. Um policial tentou tirá-lo dali, sem sucesso.

Antes da última foto – foram seis no total, e a sessão durou apenas 15 minutos – Paul tirou a sua sandália e acendeu um cigarro. "O dia [estava] quente... Eu não sentia vontade de ter nada dos pés", lembraria ele mais tarde. A imagem virou um ícone, não só para os fãs mas para toda a cultura pop, suscitando centenas de paródias ao longo das décadas seguintes – mesmo destino da capa de "Sgt Peppers".

Pós-Beatles

Além da faixa de pedestres, o nome do álbum ajudou a tornar definitivamente famoso o estúdio. Artistas como Oasis, Radiohead, Red Hot Chili Peppers e Nick Cave se juntaram aos Beatles e ao Pink Floyd (que gravou seu álbum de estreia ao mesmo tempo em que os Beatles preparavam "Sgt Peppers") na lista de artistas que gravaram em Abbey Road. O rol inclui também brasileiros, como Roupa Nova, além de outros que masterizaram seus álbuns lá, como Cachorro Grande e Skank.

O estúdio se modernizou de diferentes maneiras, incluindo equipamentos de gravação digital e um serviço especial – a masterização on-line. Qualquer artista pode enviar as faixas de seu disco para serem masterizadas em Abbey road pela internet.

Os preços são um pouco salgados, mas não abusivos – um CD custa em torno de 90 libras por faixa (R$ 258), e a masterização fica pronta em no máximo cinco dias úteis. Só fica faltando a capa – mas isso, só viajando para Londres mesmo.

Fonte: http://g1.globo.com

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